13.3.13

Da minha paixão por listas e tendência à procrastinação

Dispostos desordenadamente sobre a minha superfície estendida estão:

dois fones de ouvidos
um estojo de canetas
uma caderno pautado, e sobre ele outra caneta
uma aliança falsa
um gravador, com cerca de 30 horas da minha vida na memória
um computador, no qual digito agora
cabos conectores
uma pilha com três cadernos fechados, um livro e uma cópia xerox de um texto indiano
um pacote de cigarros
óculos de sol
cosméticos para secar o pé e molhar o nariz
pomada para matar micoses
um bonito edifício erguido com andares de livros com capas coloridas
um vaso, com um pouquinho de vida
um par de óculos de grau
duas canecas e um copo
6875 músicas, movidas à eletricidade
um shorts jeans
uma camiseta
roupas íntimas
uma atmosfera úmida, flexível e quente
um abajour
uma tesoura
um apontador
protetor solar


2.10.12

Elvira Matilde

Desde que eu mudei para Brasília eu achava um desperdício tanta área verde e tão pouca gente a usando. Eu pensava que um dia iria criar o hábito de descer, tomar sol, ler um livro... enfim... Desde que estou "a toa" em casa, tenho frequentado mais a área verde daqui da quadra - sempre de passagem, é verdade - mas também é verdade que minhas passagens até o mercadinho ou até a manicure têm sido cada vez maiores (vocês me conhecem, basta um passarinho, algumas plantas diferentes ou um mísero ipê florido pra me distrair por pelo menos cinco minutos).
Hoje eu e o Thi saímos de casa cedo para ir fazer SUP no lago. Acordamos cedo (1º milagre do dia), tomamos café em casa (dadas as atuais circunstâncias, este pode ser considerado o 2º), passei protetor (não, não consegui o 3º milagre em tão curto tempo, o Thi foi sem protetor mesmo...), coloquei o biquini, vesti aquela minha saída de praia que comprei no bazar da Elvira Matilde, e fomos para o lago. Chegamos no clube no horário marcado (4º milagre) e esperamos bastante pela moça que nos entregaria as pranchas alugadas. Esperamos até desistir. Deixei o Thi no trabalho e voltei para casa de carro, biquini e protetor passado.
Sem obrigação de cumprir horário em nenhum lugar e com a intenção de aproveitar o tempo e estudar um pouco, subi, peguei um livro e me mandei pro jardim que tem bem aqui na frente do prédio entre um bloco e outro, mas de certa forma afastado da L2 (avenida vizinha aqui de casa) e fora de qualquer rota de passagem (a não ser que seu destino seja o Bloco K ou o L). Ao encontrar uma boa área ensolarada, estendi a toalha, tirei o vestido, deitei sob o sol e comecei a ler - praticamente a realização de um sonho.
Bem, o importante é que em determinado momento, duas senhoras passam pelo jardim colhendo os abacates que já estão começando a cair dos galhos. Elas começam a fazer alguma algazarra e eu me sento para saber o que está acontecendo. Acabo por estabelecer contato visual com uma delas. Ela acena, eu aceno de volta e logo elas estão do meu lado, perguntando se não chamava muita atenção eu ficar ali de biquini... Bom, papo vai e vem, rapidamente elas simpatizaram com a minha atitude e começamos a conversar, sem o elefante branco (aka, meu corpo de fora) entre nós. Nisso, descobri que elas são pessoas interessantíssimas. Uma delas - a Dona Elvira - é viúva de um antigo ex adido militar do cairo, e me prometeu contar várias histórias sobre a vida em um país árabe e sobre os lugares onde ela morou e pôde desfrutar do que diz ser "uma verdadeira democracia". A outra - Dona Matilde - é paulista de Santo Amaro, meu; e ela está em Brasília pra ajudar o filho que trabalha na UnB a ajeitar a mudança. Ao nos despedirmos, elas me presentearam com dois dos abacates e combinamos um horário para tomar sol amanhã, dessa vez, elas vêm de biquini.

14.11.11

mais valter hugo mãe, mesmo livro

éramos por igual todos cidadãos da mesma coisa. a andar para a frente com os instintos de sobrevivência a postos como antenas. eis a emissão certa, a propaganda que não podíamos dispensar, sobreviver, segurarmo-nos, e aos nossos, e abrir caminho até morte dentro. essa é que era a essência possível da felicidade, aguentar enquanto desse.

valter hugo mãe - a máquina de fazer espanhóis

com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanindade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhes os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos que levar o coração, e lamentamos muito, ms não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.

13.10.10

Os jogos da memória

Em Halbwachs, as noções de tempo e espaço são estruturantes dos quadros sociais da memória, ambos instâncias solidárias entre si, fundamentais para a rememoração do passado na medida em que as localizações espaciais e temporais das lembranças são a essência da memória. Nada escapa, nem mesmo a memória, a esta trama de consolidação das estruturas espaço-temporais que configuram a existência social, uma vez que é da combinação dos seus diversos elementos, através da linguagem, que pode emergir a lembrança das memórias individuais.

Halbwachs reconhece, de muitos modos, a vibração do tempo no conteúdo material das lembranças, atribuindo à memória o princípio “intencional” e “imaterial” de uma coordenação entre as diferentes temporalidades e as regiões do espaço em que se produzem, visto serem as lembranças solidárias das regiões da experiência social, as quais, por sua vez, lhe são irredutíveis. (...) O Tempo revela-se cada vez mais como duração, preenchido por falhas e lacunas, fenômeno que reflete o arranjo da matéria pela vida, o que lhe permite referir que a memória, na linha do que afirmará Bachelard posteriormente, é tributária da sinergia de múltiplas causalidades, tanto formal quanto material, e onde o fluxo temporal contínuo da consciência, proposto pelo bergsonismo, se esvanece.

Neste sentido, a memória não se configura apenas num tradicionalismo de cunho nostálgico e sentimental, mas nos mitos, saberes, fazeres e tradições que são perenizados, ordinariamente, no interior das manifestações culturais humanas, a contragosto das intimações objetivas de um devir, “numa seqüência de fixações no espaço da estabilidade do ser”.

(Ana Rocha e Cornélia Eckert. Os jogos da memória. Revista Ilha, n.1. Florianópolis, dezembro de 2000, p. 71-84)

2.10.10

Depois de muito tempo de seca, choveu saudade.

9.9.10

sonho

sonhei que você tinha um bichinho andando na sua cabeça
era tipo uma planária pequenininha
ela tava andando na sua testa
e ia entrar no seu cérebro
daí eu tirei ela com a mão e joguei no cinzeiro

23.7.10

Fortuna

garimpando tristezas do passado
tentava fugir da felicidade
injusta sina

Visita poética de papai

SQN - Super Quadra Norte - Bloco X - 303.
Eu, estes sábados felizes e vocês.
Su casa, mi casa, nossa rua , vila, cidade, pais, continentes, planeta.
Um universo de amigos, luas, astros, estrelas, outros corpos celestes, cometas.
Contidos em seu risos, seu cabelos, palavras serenas, tom de voz e olhar.
Esta passargada, vocês, mi casa, o abrigo, vocês, a ilha, su oásis, su lar.
Tão confortável quanto seus abraços, beijos e todos os meus desejos de viver em paz.
Os dois caramujos no caminho, carregando uma só casca
Os dois passarinhos no ninho, protegidos da tempestade
Dois desejos realizados em uma só vontade
Dois corpos humanos habitando uma só alma
Vocês, eu e mi casa.
...e pra quem, como eu, tem olhos de sentir alem de ver
Ela é a mais bonita de Brasilia, do Brasil e do mundo.
Igual a vocês, igual a vocês. Igual a vocês.


(este deveria ser o blog do meu pai.. hehe, só ele posta aqui=P)

2.6.10

É, eu sinto saudade sim.

Relendo seus textos e poesias, revivo a cidade. A poluição visual. Sonora. Tátil. A Vila Madalena. O metrô. A rua Augusta. Sinto falta de todas as alegrias vividas ali e também das tristezas. Sinto saudade de uma época. Quando penso na cidade revivo o apartamento. Nossos silêncios. Minhas tagarelices. As primeiras festas na cozinha de casa. Os jantares. Os filmes. Relembro dos livros que emprestaram assunto às nossas noites. De não ter com quem falar. Dos fins de semana. De me envergonhar das poesias. Me orgulhar delas. Te admirar. Te recriminar. Me orgulhar de você. Te procurar. Ser encontrada. Te amar. Ser amada. Não importa a distância. Mas este silêncio - puta que pariu!