23.12.09

empréstimo de texto

MANIA DE EXPLICAÇÃO

Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.

Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra.
As pessoas até se irritavam, irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito, com aquela menina explicando o tempo todo o que a população inteira já sabia. Quando ela se dava conta, todo mundo tinha ido embora. Então ela ficava lá, explicando, sozinha.
Solidão é uma ilha com saudade de barco.
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.
Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.
Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco.
Pouco é menos da metade.
Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.
Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.
Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.
Agonia é quando o maestro de você se perde completamente. Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.
Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.
Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.
Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.
Renúncia é um não que não queria ser ele.
Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.
Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente. Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.
Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.
Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.
Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.
Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.
Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.
Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.
Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.
Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro.
Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.
Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.
Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.
Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.
Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.
Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo.
Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.
Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.
Desatino é um desataque de prudência.
Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.
Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.
Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.
Emoção é um tango que ainda não foi feito.
Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.
Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Desejo é uma boca com sede.
Paixão é quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra.
Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.

Adriana Falcão

29.10.09

cantiga de babá

Eu queria pentear o menino
como os anjinhos de caracóis.
Mas ele quer cortar o cabelo,
porque é pescador e precisa de anzóis.

Eu queria calçar o menino
com umas botinhas de cetim.
Mas ele diz que agora é sapinho
e mora nas águas do jardim.

Eu queria dar ao menino
umas asinhas de arame e algodão.
Mas ele diz que não pode ser anjo,
pois todos já sabem que ele é índio e leão.

(Este menino está sempre brincando,
dizendo-me coisas assim.
Mas eu bem sei que ele é um anjo escondido,
um anjo que troça de mim.)

Cecília Meireles

28.10.09

brincadeira

devaneios
de vagarosos meios
divagarei-os

devagar
ei los

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens

9.10.09

lista de coisas boas

(com atraso, mas agora vai)

despedida no aeroporto
receber flores com o cartão mais lindo do mundo!
os rios de Portel
aquelas mini vitórias-régias florindo a noite
um "puta que pariu' bem dito
muitos "PUTA QUES PARIU" bem ditos
a Eny chamando "Joanaaaaaa"
o seu Manoel falando "ô meu papai do céu, minha nossa senhora.."
a risada da Dona Maria
beijinho do Vitor
o carinho da Madá
as músicas da Vânia!
a Enilce dançando
a lua nascendo e se pondo e nascendo cada dia mais bonita
o abraço do Eloy
a determinação da Nicinha
o Valdo (coisa de fã)
o Sandro cantando
o Delson tocando
beijinho da Vitória
o tom de voz da Joelma
enfim viajar com a Cris!
brincar de "pira" com as crianças no rio (e perder sempre!)
conseguir telefonar às 7 da manhã, do meio do rio!
ele achar bom que eu liguei :)
emails, emails, emails e emails
decorar a letra de "chora me liga"
reencontro no aeroporto
sorrisos
viajar
conhecer novos amigos
gostar dos novos amigos :)
ver o Bernardo pela primeira vez (foi melhor do que eu esperava)
ver o Bernardo pela segunda vez (foi melhor do que eu esperava)
ver o Bernardo pela terceira vez (foi melhor do que eu esperava)
ver o Bernardo pela quarta vez (foi melhor do que eu esperava)
pegar o Bernardo
ver ele dormir no meu colo!
ouvir ele chorar
fazer cóceguinhas no canto da boca dele pra ele rir (é sá, eu faço quando vc não tá vendo)
fazer planos de viagens
dançar merengue! samba! forró! (mesmo doente)
esquentar a mão na barriga quente de febre
não conseguir fazer cara de doente no hospital!
fitas cassete :D
tudo em piedade: o caminho de ida, a primeira impressão do chalé, o jardim, o cheiro, a música, a massagem, as tentativas de ver filmes sem dormir, a comida, a vista, a companhia!!
andar de braços dados e pernas coordenadas
ter cia até o carro
não ter medo
braços e abraços
quando ele aparece no começo do corredor pra me abrir o portão
reviravoltas boas na vida
notas mentais (chá mate)
:) violão!
ligar quando chego em casa
receber muitas mensagens
aprender a escrever rápido :)
perceber que o meu espaço é meu espaço
aprender a não ligar pro que os outros pensam
aprender a confiar desde sempre
aprender
ter o infinito pra escrever!

6.10.09

calmaria

uma parte quer gritar,
espernear,
chorar,
bater,
rasgar,
ferir.
machucar,
mas tudo sossega num abraço :)

5.10.09

Estava escrito

Água derramada no papel
um descuido
tão fácil se borra o destino

O Hóspede Despercebido (Paulo Leminski)

Deixei alguém nesta sala
que muito se distinguia
de alguém que ninguém se chamava,
quando eu desaparecia.
Comigo se assemelhava,
mas só na superfície.
Bem lá no fundo, eu, palavra,
não passava de um pastiche.
Uns restos, uns traços, um dia,
meus tios, minhas mães e meus pais
me chamarem de volta pra dentro,
eu ainda não volte jamais.
Mas ali, logo ali, nesse espaço,
lá se vai, exemplo de mim,
algo, alguém, mil pedaços,
meio início, meio a meio, sem fim.

5.9.09

mini lista

fazer planos
banho de rio
abraço do Vitor
banho de rio com as crianças de menino deus
o balanço do barco
dormir na rede
a lua refletindo no rio
a viagem de volta para a portel
ligação antes de dormir
ligação ao acordar
sentir saudade
sentir o bernardo se ajeitando
gol do brasil
açaí da mãe do Elóy
o sorriso do Vitor
pegar a filha da Ana Luzia
despedida e comemoração no píer de menino deus
ler pras crianças, debaixo da árvore
ler pros adultos, mesmo que a leitura não acabe nunca
ganhar açaí branco
dar óleo diesel

3.9.09

boneca russa

alma embrulhada em carne, coberta de pele e escondida por roupas.